Ancine divulga novos investimentos para cinema e TV

Marta Suplicy ancine

 

“Manoelzinho, te amo, meu velho”, derramou-se a produtora Sara Silveira, ao fim da apresentação dos novos investimentos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), no fim da tarde desta terça-feira, no Rio. Responsável por filmes como “Trabalhar cansa” (2011) e “Falsa loura” (2007), Sara se dirigia a Manoel Rangel, presidente da Ancine, que acabara de divulgar, ao lado da ministra da Cultura, Marta Suplicy, os novos investimentos para cinema e TV da quinta convocatória do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O amor declarado por Sara se referia tanto ao montante anunciado por Rangel — cerca de R$ 400 milhões, um recorde para o Fundo —, quanto a novas linhas criadas, em especial uma dedicada exclusivamente a filmes de arte. O valor é praticamente o dobro dos R$ 205 milhões disponibilizados pelo FSA em 2012.

As regras dos concursos para os postulantes a utilizar o FSA serão divulgadas em 26 de dezembro, no site da Ancine. Os primeiros editais do Fundo foram lançados em 2008, com uma verba de R$ 74 milhões e quatro linhas de investimento: produção de longas-metragens, produção de obras para TV, aquisição de direitos de distribuição de longas e comercialização de longas para cinema. Foi através desses mecanismos que filmes como “Chico Xavier” (2010) e “Faroeste Caboclo” (2013) foram financiados. Agora, essas quatro linhas originais do FSA continuam em vigor, mas têm disponíveis R$ 155 milhões.

Além dessas, Rangel anunciou novos campos de atuação para o Fundo. O que chamou mais a atenção e foi mais aplaudido pela plateia de produtores e distribuidores que esteve presente nesta terça-feira, no prédio na Ancine, no Centro do Rio, foi a linha para a “produção de longas-metragens com propostas de linguagem inovadora e relevância artística”. Ou seja, filmes de arte. O edital, cujas inscrições devem ser abertas ainda este ano, no dia 26, vai destinar até R$ 2,25 milhões para cada projeto selecionado, num total de R$ 20 milhões da linha. Os contemplados terão, ainda, que ser lançados em pelo menos dez salas de cinema.

— Vai caber ao produtor inscrever seu projeto como obra de linguagem inovadora se ele o considerar assim. Mas vamos ter uma grade de critérios, que vão do currículo do diretor ao tipo de proposta, para avaliar. E ainda teremos uma comissão para fazer essa seleção — explicou Rangel.

O FSA também terá, a partir de agora, uma linha com R$ 30 milhões destinados a programadoras de TV, para que elas financiem projetos para suas grades. Outra novidade são os editais para desenvolvimento, em que R$ 33 milhões serão repartidos para a realização de laboratórios de roteiros, núcleos criativos e elaboração de projetos.

Outra novidade do FSA é a criação de uma linha para a regionalização da produção pelos estados brasileiros. Ela terá disponível R$ 80 milhões a serem distribuídos em parceria com governos estaduais e municipais, sempre exigindo uma contrapartida. Desse montante, R$ 50 milhões serão destinados a projetos fora de Rio e SP e os demais R$ 30 milhões para projetos especiais de políticas públicas em todo o país.

— Nosso objetivo é fazer do Brasil um dos maiores mercados audiovisuais do mundo, e eu sinto que estamos no caminho certo — disse Marta Suplicy.

Rangel também anunciou que o Fundo Setorial do Audiovisual terá reservados mais R$ 15 milhões para a expansão do parque exibidor em cidades com mais de 100 mil habitantes e R$ 20 milhões para a digitalização das salas brasileiras, duas medidas que se integram ao programa Cinema Perto de Você. Vão restar, ainda, R$ 40 milhões para suporte financeiro automático em empresas de cinema e TV que apresentarem resultados de comercialização.

Durante a cerimônia, Rangel e Marta foram aplaudidos com entusiasmo pelos produtores, mas, nas conversas posteriores, ainda pairava sobre a Ancine a velha desconfiança sobre sua agilidade para gerir esses recursos. Nem mesmo o anúncio feito por Rangel de que 69 novos funcionários começarão a trabalhar na Agência entre janeiro e fevereiro de 2014 tranquilizou completamente a plateia.

— Todos os anúncios de investimentos da Ancine são sempre positivos, é um sopro de entusiasmo. Mas o problema está no dia a dia. Do que adianta ter esses recursos se não há fluxo que faça a grana circular com rapidez — disse Rodrigo Letier, da TV Zero, produtor de obras como “Bruna Surfistinha”.

— Os novos servidores podem ser burocratas que estudaram para passar no concurso e não vão ajudar a Agência a andar. O anúncio que foi feito hoje é excepcional, principalmente pela linha para filmes de arte e pela outra para desenvolvimento de projetos. Mas os prazos dos produtores precisam ser cumpridos, principalmente quando pensamos na grade de TV, e a Ancine emperra esse processo — acrescentou Leonardo Edde, da Urca Filmes, produtor executivo de “Tropa de elite 2” (2010).

 

 

 

 

O Globo

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